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Solução Primária, Hélder Medeiros

Sábado, 21.08.10

Sinopse: O David, um operacional acabado de integrar uma equipa do Grupo de Operações Especiais da PSP, é chamado para a sua primeira missão, o assalto a uma embaixada tomada por supostos terroristas. O plano é simples: beneficiar do efeito surpresa e conduzir uma acção ofensiva e rápida. Contudo, e sem que nada o faça prever, os acontecimentos tomam um rumo trágico e a missão desmorona-se perante os seus olhos.

Quatro anos depois, o David é visitado pelo familiar de uma das vítimas mortais do assalto, que lhe faz algumas revelações surpreendentes e lhe pede para procurar os assassinos do seu ente querido.

A bsca acaba por guiá-lo através de domínios inesperados e, resultante do contacto com outras personagens, o David é confrontado com o facto de que a humanidade está actualmente na fase mais perigosa da sua Evolução. Somos desenvolvidos o bastante para criar armas capazes de aniquilar um planeta, mas ainda somos animais o suficiente para as usar.

E eis que surge a grande questão: haverá uma forma de sermos salvos? Uma espécie de solução primária escrita nos nossos genes? A resposta a esta pergunta condu-lo a um tenebroso segredo assente numa descoberta feita nos anos 50 nos Açores, um arquipélago isolado no meio do Oceano Atlântico, e que tem o potencial de salvar o Homem ou de ser o gatilho para a sua destruição.

Através de uma série de reviravoltas empolgantes e do desvendar de enigmas cativantes, o David chega finalmente ao fim de uma jornada arrebatadora, culminando naquele que é um desfecho emocionate e imprevisível.

 

 

Numa viagem de avião a Cabo Verde, li e descobri a Solução Primária, a obra do meu conterrâneo Hélder Medeiros.

O Hélder é já alguém bastante conhecido pelos seus hilariantes vídeos, como por exemplo a série "E se tivesse sido feito nos Açores" e já anda a dar cartas na literatura açoreana. Recomendo a visita ao seu blogue onde poderão ficar a saber mais sobre o comediante, o escritor e o homem - www.helfimed.blogspot.com

 

 

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Semana da Cultura Açoriana no São Luiz

Terça-feira, 02.03.10

"Começa hoje, no Teatro São Luiz, uma semana inteiras dedicada à Cultura Açoriana. Até 7 de Março, a música, os sabores, a literatura, a gastronomia, o cinema, as artes visuais e a arquitectura são os ingredientes essenciais que dão a conhecer todo o arquipélago.

O destaque da semana vai para o lançamento do songbook, CD e DVD 25 anos de Música Original nos Açores, os debates sobre a Arquitectura e sobre a Literatura dos Açores, e os concertos de Zeca Mederios, Orquestra Regional Lira Açoriana e baile ao som da Orquestra Angrajazz. Ao longo da semana, a ementa do Spot São Luiz inclui pratos característicos da gastronomia açoriana, e haverá ainda a oportunidade de degustar os produtos açorianos nas happy hours do Jardim de Inverno."

 

Notícia retirada do Jornal Destak de 02 Março de 2010

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por Paula Patricio às 21:32

Solução Primária, Hélder Medeiros

Quinta-feira, 03.12.09

Meus caros,

Agora que a malta já recebeu o subsídio de Natal e já andamos todos malucos com as compras/ofertas, deixo-vos uma dica: UM LIVRO!!!!

 

Este espaço é, como sabem, para falar basicamente das minhas leituras e, de certa forma, para promover a tão boa literatura açoreana que, infelizmente, não tem grande voz (ou melhor, é muda) aqui no continente.

 

O Hélder Medeiros lançou um livro.

E quem é o Hélder Medeiros, perguntam vocês?

O Hélder Medeiros é um "rapazim" de São Miguel com sentido de humor enorme (vão a www.tunalhos.blogspot.com para comprovarem), inteligente (não tivesse ele estudado na Escola Secundária das Laranjeiras e tirado o curso de Línguas e Literaturas Modernas, na Univerdidade dos Açores - tal como "je"), bom rapaz (são as palavras da mãe) e já com provas dadas na área das letras, através da Revista Neo.
 

Deixo-vos com alguns vídeos para tirarem as vossas conclusões e façam o favor de ler Literatura Açoreana.

 

 

 

 

 

 

Mais informações sobre o livro e como podem comprá-lo vão a www.helfimed.blogspot.com (o site do autor)

 

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Escritos Açoreanos - a lava que serve de tinta

Sábado, 18.04.09

Para além de ir matar as saudades da família e dos amigos, as minhas viagens a São Miguel servem também para procurar livros que dificilmente consigo encontrar nas livrarias do continente.

Na mala vieram saudades e páginas escritas por pessoas que, como eu, amam a sua ilha e o seu arquipélago.

 

As obras adquiridas foram as seguintes:

 

Nascido do Magma, Rúben Rodrigues

A Cilada, Fátima Vicente

Crónica dos Senhores do Lenho, Paula de Sousa Lima

Gente Feliz Com Lágrimas, João de Melo

Revista Neo8

 

 

A seu tempo, cada uma dessas obras irão ter o seu lugar de destaque aqui.
Muitas ficaram por comprar. Estão na lista para a próxima viagem. 

 

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por Paula Patricio às 19:48

Antero de Quental - O Filme

Sábado, 14.03.09

O Teatro Micaelense teve a honra de ser o palco para a ante-estreia do filme “Anthero – O Palácio da Ventura”, o mais recente projecto de José Medeiros, onde se narra a história do poeta açoreano, o qual foi uma das principais figuras da filosofia e da literatura portuguesa.

Segundo o realizador, “é uma ficção baseada na vida e obra de Antero de Quental e que porventura poderá desvendar aspectos menos conhecidos de um homem extraordinário.”

 

Ainda antes de ser transmitido na RTP-Açores, irão ser feitas várias apresentações públicas, nomeadamente np Teatro Faialense, nas Casas dos Açores em Lisboa, Porto e Faro e provavelmente na Universidade de Boston, tudo com o intuito de levar a película “a um número mais vasto de pessoas.”

 

Será com muito prazer e orgulho que irei assistir a essa grande produção açoreana.

Para todos os que se interessam pelo trabalho de Antero, essa é a oportunidade de conhecer ainda mais a sua vida.

 

O Palácio da Ventura
 
Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busca anelante
O palácio encantado da Ventura!
 
Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada já, rota a armadura...
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formusura!
 
Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, o Deserdado...
Abri-vos, portas d'ouro, ante meus ais!
 
Abrem-se as portas d'ouro, com fragor...
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão -- e nada mais!
 
 
                          Antero de Quental

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por Paula Patricio às 09:34

"Cenários Conjugais"

Terça-feira, 29.04.08

Já comecei a leitura da minha última oferta - A Noite dos Prodígios e outras histórias - e estou a adorar.
O livro é composto por uma compilação de contos que o jornalista/escritor Carlos Tomé publicou na revista "Açores" e que tratam dos mais variados assuntos .. todos com um toque de ironia e com uma leveza magnífica.

De todos os que li até ao momento, houve um que me despertou à atenção e que achei que seria giro partilhar com os meus leitores (se eles existirem).

O conto chama-se Cenários Conjugais e passo a citar:

 

"- Meu amor, e se nos casássemos?

- É  primeira vez que falas em casamento, querido!

- Pois é. Mas vivemos juntos há já cinco anos. Talvez esteja na hora de oficializarmos a nossa relação.

- Que romantismo aé vai...

- Desculpa, querida. Estou a tentar ser prático.

- Bem me parecia...

- É que, bem vistas as coisas, temos estado a perder muito dinheiro. Casados, beneficiaremos de um regime de impostos mais favorável, obteremos uma taxa de juro mais baixa no empréstimo para a compra do apartamento e teremos uma série de outras vantagens.

- Uma delas é a de voltarmos a ser convidados para as festas da minha madrinha...

- A velha ficou brava quando descobriu que já não eramos apenas namorados.

- Acho que ficou escandalizada por lhe teres aparecido nú...

- E quem a mandou bater à tua porta às dez da madrugada?!

- Chamou-nos pecadores, libidinosos, escravos da luxúria...

- Depois de casados, volta a aceitar-nos. Ela gosta de nós, acha piada ao modo como lidamos com as intrigas da família. Esquece isso, querida. O problema vai ser o eclodir cíclico das crises...

- Que crises?

- Ora, as crises que todos os casais atravessam. Primeiro, a perda da privacidade de cada um: já não estamos sós em casa, já não podemos estar à vontade na casa de banho, de porta aberta, e já não é admissível dar um fofó, chupar os dentes ou tirar macacos do nariz na frente do outro.

- Mas, querido, isso já nós ultrapassamos!

- Não sei, não sei. Casados, é diferente. E, depois, vem a crise da conquista de espaço...

- Isso é com os americanos, não?

- Conquista de espaço, amorzinho. Cada um vai lutar pelo seu cantinho, pela sia zona exclusiva. À mesa, no sofá da sala e, até, na cama, cada um de nós vai procurar uma espécie de reserva, de zona protegida, onde possa estar em paz, comendo, lendo, vendo televisão ou, simplesmente, pensando. Tudo num abençoado silêncio.

- Acho que exageras. Sempre respeitei os teus espaços. Físicos e espirituais...

- Quero ver, depois de casarmos. E que me dizes aos filhos, querida?

- Não temos nenhum!

- Mas vamos ter, não vamos? Aí, vão surgir as discussões  sobre a quem compete ir, em determinada noite, pôr a chucha na boca do bebé, mudar fraldas malcheirosas, dar-lhe o leitinho...

- Isso de mamada não é contigo!

- E o biverão, quando for mais crescidinho? E a educação a dar-lhe? E as nossas divergências sobre recompensas e castgos? E o que dizer-lhe acerca do sexo?

- Onde já vais, querido!

- E haverá o "stress" laboral, a juntar  a esses problemas familiares. Tudo junto, vai provocar mossa no nosso relacionamento, afectar a nossa vida sexual.

- Achas, querido?

- Tenho a certeza! Iremos ficar reduzidos a uma vez por semana, talvez aos sábados...

- E os feriados? Nem nos feriados?!

- Só aos sábados, meu amor. E, ainda assim, quandonão te doer a cabeça ou eu não adormecer nos preliminares...

- Estás a meter-me medo, querido.

- E ainda não te falei da pior crise, o verdadeiro terror: a crise dos sete anos!

- Como assim?

- Dizem os especialistas que, por volta do sétimo ano de casamento, os casais enfretam a sua pior crise. O amor estáe, estilhaços e a fogueira da paixão reduzida a cinzas. Só o sexo continua aos sábados. De três em três meses...

- Que horror!

- Pois é. Tudo praticamente destruído. E vem o divórcio.

- Litigioso?

- Claro! Mais até do que o litigioso. Sangrento! Depois de sete anos de vida em comum, sabes lá quantos segredos, quantos pormenores escabrosos, quantos pequenos podres há para serem revelados na praça pública. Tarado, chulezeiro, maricão, frígida, burra, lésbica, vale tudo!

- Não digas mais, querido. Assustas-me.

- Então não falo da guerra das partilhas. Terrorismo puro, podes crer! cada "bibelot", cada botãozinho, cada insignificância é disputada ferozmente, quase à chapada. Até restos de sabonete, na casa de banho!

- O nosso divórcio ... quer dizer, se tivermos essa crise dos sete anos, não vai ser litigioso, pois não?

- Que ideia, lindinha! Separar-nos-emos como dois grandes amigos!

- Só insistirei em levar a colecção de CD's do Dizzie Gillespie. Tu nem gostas muito dele...

- De acordo, desde que fique com os livros do Astérix.

- Combinado, querido.

- Casamo-nos quando, meu amor?"

 

 

Se leram até ao final, o que acharam?

Eu achei hilariante!!!!

O que um possível pedido de casamento deu para falar !

 

 

 

 

 

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por Paula Patricio às 21:59

A Noite dos Prodígios e outras histórias, Carlos Tomé

Segunda-feira, 28.04.08

Estou feliz!

Hoje ao chegar a casa estava um envelope endereçado a mim cujo remetende era o Carlos Tomé - um escritor açoriano que descobriu o meu blog quando estava a fazer uma pesquisa na net acerca do seu último romance Morremos Amanhã.

O sr Carlos Tomé deu-me a honra de receber um mail dele a agradecer o que tinha escrito sobre ele, prometendo enviar-me um exemplar de outro romance dele, autografado.

Não vejo a hora de começar a ler!

Como a literatura açorena não é tão divulgada aqui no continente, como deveria de ser, tentarei, dentro das minhas possibilidades, tentar fazer deste blog uma divulgação da boa literatura que escreve naquelas ilhas.

O sr Carlos Tomé já teve honras de aparecer citado na revista Os Meus Livros (n.º 61, ano 6, Março 2008), num artigo acerca das obras literárias que falam da guerra do Ultramar - um tema que, cada vez mais, está a ser divulgado por grandes nomes da literatura.

Neste artigo podemos ler: "Dos fantasmas de quem voltou, fala (...) o açoreano Carlos Tomé, no seu romance Morreremos Amanhã (Artes e Letras). O protagonista deste livro é um continental que vai aos Açores onde encontra um antigo camarada da guerra micaelense. Os dois conversam sobre o passado, abrindo uma porta a memórias que até então tinham permanecido submersas, proibidas.".

 

Lamento dizer que a Os Meus Livros errou!

 

Se quisermos fazer um resumo do Morremos Amanhã, o acima tranascrito não será o mais correcto.

 

O protagonista é um continental que volta aos Açores após quase 30 anos depois de regressar da guerra, por motivos profissionais e esta viagem faz com que se recorde do tempo passado em guerra, dos seus companheiros, das aventuras mas, principalmente de Rui - um açoreano, camarada de guerra, que morreu numa das muitas mortes estúpidas de guerra. No bolso Tozé (o protagonista) guardou uma carta que lhe queimava o bolso mas, agora nos Açores, esta carta deveria finalmente chegar aos mãos de quem por direito.

 

Morremos Amanhã é dedicado a "quantos se viram em África, perdidos de si próprios, de armas nas mãos."

 

Proponho a lerem o meu post de 26 de Novembro de 2007. Foi este post que me fez receber um livro

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Morremos Amanhã, Carlos Tomé

Segunda-feira, 26.11.07



Morremos Amanhã, é uma obra do jornalista e escritor açoriano Carlos Tomé.
É mais uma sugestão de leitura que deixo às alminhas que aparecem neste blog.
Este livro foi-me apresentando por uma cliente minha, a D. Maria Rita (uma senhora de uma cultura invejável)e, depois do pequeno resumo que ela me fez, procurei o livro e comprei-o.
Valeu cada cêntimo!
Morremos Amanhã, de Carlos Tomé, é dedicado, como o próprio escritor diz "a quantos se viram em África, perdidos de si próprios, de armas nas mãos."Resumindo: relata a vida na guerra do Ultramar e as cicatrizes físicas e, acima de tudo, psicológicas, que os soldados trouxeram.
Na apresentação do livro, Daniel de Sá diz "Quando acaba a guerra? Quando morre o último soldado ou quando é assinado o tratado de paz? ... Quando saram as derradeiras feridas ou quando os cegos se adaptam à escuridão e os amputados às próteses? ... Quando se esquece o amigo que se viu morrer ou quando vai a enterrar a mãe que o terá amamentado? ... Quando, finalmente, se cumpre um desejo do irmão de armas que não voltou? ... Ou quando falecem todos os antigos combatentes?
Este romance de Carlos Tomé é a história da guerra depois da guerra. A que continua na memória dos sobreviventes. Que às vezes têm de suportar uma estranha espécie de remorso por estarem vivos. Com o espírito atormentado depois da tortura dos combates. Um romance escrito numa linguagem que insinua o drama sem insistir nele. Serena e fluída. Bela e límpida. Um hino à paz e um hosana à Língua Portuguesa."


Morremos Amanhã é uma prova de que a literatura portuguesa, em geral, e a literatura açoriana, em particular, está viva e em bom estado.

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por Paula Patricio às 21:50

Poema dos Náufragos Tranquilos - Emanuel Félix

Quarta-feira, 10.10.07




Somos herdeiros dos quatro ventos
Sem uma vela para lhes dar
Temos amarras e temos lencos
Num cais de pedra para acenar.
Somos herdeiros da maresia
Que salga os olhos de olhar o mar
E temos rios de lava fria
Que se recusam a desaguar.
Somos herdeiros de uma lembranca
de tesouros afundados
e arpoamos a esperanca
na nossa morte reclinados.
Somos herdeiros de um rombo aberto
no nevoeiro secular tranquilos
naufragos do incerto
vamos morrer no mar.

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por Paula Patricio às 23:16

O Rapto do Senhor Santo Cristo dos Milagres, Jayme Velho

Segunda-feira, 09.07.07


 



O Rapto do Senhor Santo Cristo dos Milagres - Jayme Velho


 


O Rapto do Senhor Santo Cristo dos Milagres, um romance escrito pelo açoriano Jayme Velho, foi-me apresentado aquando da minha última ida à ilha de São Miguel, nos Açores, em Maio último.


Como boa propaganda, a poucos dias das festividades em honra do Senhor Santo Cristo dos Milagres, onde a ilha fica cheia de turistas e emigrantes que regressam à terra natal para cumprir com suas promessas, vi um grande placard a publicitar este livro.


Comentei com o meu amigo Rui Félix e quando fiz os meus 29 aninhos (já eu tinha regressado das minhas mini-férias a casa) recebi este livro como oferta do Rui e da Carol.
Primeiro, fiquei muito sensibilizada com eles os dois que, mesmo estando eu longe, deram-se ao trabalho de me oferecerem aquilo que mais gosto ... um livro.
Acabei de lê-lo à dias! Um pouco aborrecido nas descrições mais técnicas, mas um bom livro.

"Quero raptar a Imagem do Senhor Santo Cristo dos Milagres - disse o Comandante com a tranquilidade assustadora (...) Daquela forma tranquila que revela o muito tempo que a pessoa que a adopta já pensou no assunto a que se está a referir.
- Raptar o Senhor Santo Cristo - perguntou o Doutor com os olhos esbugalhados e vermelhos dos restos do álcool, do fumo e da hora adiantada da noite (...)
- Exactamente.
- Mas isso é uma loucura! Nunca alguém teve coragem sequer de pensar uma coisa dessas e muito menos de a realizar.
- Raptar, não. Mas roubar, sim.
- Quem?
- Verne. Júlio Verne.
- O das ...
- Vinte Mil Léguas Submarinas (...)"

E é com esta ideia inverosímil que o romance se inicia!

Através dos 40 capítulos da obra, apenas a ideia final do romance é fundamental. É o verdadeiro sumo da história e é uma estalada para os açorianos ditos devotos do Senhor Santo Cristo dos Milagres, bem como uma estalada para todos os que se dizem devotos de todos os santos e arcanjos ...


" O Bispo e os restantes eclesiásticos caminham lentos nas suas vestes coloridas (...), pisando, aparentemente indiferentes, as magníficas cores das flores naturais que embelezaram outrora a ilha e que agora cobrem (...) todas as ruas por onde vai passar a procissão. Mais atrás seguem pessoas em devoção máxima que participam no cortejo por promessa e grupos representantes de várias classes sociais e instituições: médicos, advogados, escolas, ordens, políticos, entre outros, caminhando compenetrados nos seu papéis, não alheios ao facto de quem sobre os passeios da cidade de Ponta Delgada ou debruçado sobre as ricas colchas coloridas pendentes de janelas e varandas, todo o povo olha com atenção e estuda o pormenor das presenças, das vestes e das atitudes de todos quantos participam neste desfile (...), observações que servirão de tema de conversa para muitos dias."

"Por duas vezes a serpente sacudiu-se de forma estranha, sem grande ruído aparente e sem que do alto se apercebesse o que se estava a passar. Só quem se encontrasse mais perto e reparasse com atenção para muitos dos participantes de fatos escuros, com ou sem opas vermelhas, podia ver finos fios pretos rastejando pelos seus pescoços até taparem os canais auditivos externos, podendo ainda adivinhar que na outra extremidade do fio, algures nos bolsos das calças ou dos casacos um rádio pequeno transmitia em directo o relato de futebol entre o Benfica e o Futebol Clube do Porto (...)

"A notícia da chegada do Senhor Santo Cristo dos Milagres ao Porto da Caloura no sexto Domingo depois do Domingo de Páscoa correu a ilha como um trilho de pólvora. E o povo começou a chegar de todas as partes da ilha (...) para prestar homenagem ao Senhor. E diziam uns para os outros, com os olhos vermelhos e alagados do choro dos últimos dias: E veio parar à Caloura! Ao Convento da Caloura! Exactamente o mesmo lugar para onde veio a primeira vez, quando foi oferecido pelo Papa Paulo III, no século dezasseis! Louvado seja nosso Senhor, Jesus Cristo! (...)

Os pescadores tinham improvisado um altar no adro da Ermida do Convento da Caloura, para onde transportaram e colocaram a Imagem, da mesma forma como Ela tinha chegado ao porto: sem adornos e tendo como única veste a camisa rota do homem estranho que A tinha acompanhado no mar durante oito dias (...) A camisa rota, singela, sobre os ombros do Senhor, tal como Ele apareceu na varanda de Pilatos, acabado de flagelar. E desta forma sentia-se melhor aquilo que de mais belo a Imagem transmitia: a serenidade do olhar, espírito inatingível, apesar do castigo físico infligido ao corpo, matéria tangível.

(...) Os pescadores que assistiram à chegada da Imagem foram os primeiros a pegar no andor e a iniciarem, no adro da Ermida, a procissão que iria durar horas a fio, sem paragens, até ao Convento da Esperança, em Ponta Delgada.
 
O povo começou a arredar-se para dar passagem à Imagem sobre os ombros de homens e de mulheres que se foram revezando sem conta. Anónimos e conhecidos, agora sem distinção. Ninguém apareceu de fatos caros, nem com sapatos ou mala de marca. Não havia opas vermelhas, nem apareceram os que achavam os relatos de futebol imprescindíveis. Não havia pétalas mortas do chão, mas as flores da ilha participaram vivas nos muros e nos prados verdes por onde o Senhor passou. Não havia grupos de padres, mas haviam padres; nem grupos de médicos, mas haviam médicos; nem grupos de políticos, mas haviam políticos: todos, sem distinção, numa amálgama de fé.

(...) Só deixavam um carreiro central para passar o andor. E olhavam espantados para a Imagem que lhes parecia ainda mais bela assim, na sua singeleza. E constatavam, muitos pela primeira vez, que aquela enorme chaga no peito, que tentavam disfarçar, ainda os fazia amá-La mais.

(...)

De todas as pessoas que viveram de alguma maneira este rapto do Senhor Santo Cristo dos Milagres, nenhuma ofereceu mais, que se saiba, jóias ou outras riquezas materiais ao Senhor. Mas contam os mais chegados à Imagem que não há registos, em memória ou em papel, de que tenha alguma vez existido tanta fé como agora. Daquela que o Senhor aprecia, entenda-se."

 
Para quem já presenciou alguma vez a procissão do Senhor Santo Cristo dos Milagres sabe que é isso que acontece: uma multidão junta-se com a desculpa de ser devota ao Senhor e no fim é exactamente o que Jayme Velho muito bem exprimiu!


 


 

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